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Publicado em 23 de novembro, 2018 | por Centro Paz e Amor

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A Terapia do perdão

Roberto Buchmann

A história do perdão não começa com Jesus, mas é ele quem enfatiza, justifica e exemplifica seu exercício, como ninguém.
O Evangelho, considerado o maior tratado psicoterapêutico de que a humanidade tem notícia e Jesus, o Psicoterapeuta por excelência, ensinando o perdão incondicional, constante, indistinto, motivam um dos mais perfeitos comportamentos, responsáveis pela saúde e pela harmonia pessoal.

Tanto quanto a Regra Áurea, e intensamente vinculada a ela, a ideia do perdão apresenta-se nas diversas culturas da Terra perdendo-se seu início na noite dos tempos. O tema está investido de tanta importância para a alma em desenvolvimento, que não erraremos ao inferir que o Mestre Jesus, ordenou aos seus profetas que semeassem o seu conceito a todos os povos, em todos os tempos.

A alma abarcando todas as possibilidades virtuosas com que foi criada, permanece, no geral, insensível ao impulso da humanização e da sensibilização que lhe compete desenvolver para galgar patamares espirituais mais altos.

Todos os estudos e esforços que pudermos fazer na área intelectual a respeito do entendimento e providencialidade do perdão nos darão subsídios para exercê-lo no campo moral, emocional e dos sentimentos.

Serão valiosíssimas a prece, a meditação e os exemplos das almas superiores de que temos conhecimento, no cultivo da percepção e da intuição.

As pessoas que nos despertam raiva e julgamentos nos dão oportunidade de perdoar reiteradas vezes, e os desafios de perdoarmos a nós mesmos nos ensinarão muito sobre o perdão.

Toda intervenção que visa tratar problemas, suas causas e seus sintomas com o fim de restabelecer a saúde ou o bem estar é chamada terapia. O perdão é a terapia de ouro para os nossos problemas somáticos, psíquicos ou psicossomáticos.

A área da Psicologia têm apresentado avanços quanto ao tema. Em um artigo de 2012, os pesquisadores Rodrigo Gomes Santana e Renata Ferrarez Fernandes Lopes, da Universidade Federal de Uberlândia, estudando o perdão, em seu artigo “Aspectos Conceituais do Perdão no Campo da Psicologia”, constatam que, por ser a Psicologia uma ciência relativamente nova, o interesse pelo estudo do perdão também é recente.

Apesar da importância do perdão dentro de algumas tradições religiosas, sobretudo nas três grandes tradições monoteístas, que vêm articulando o conceito e a prática do perdão há milênios, levou tempo para que surgissem estudos sistemáticos sobre o tema, especialmente no Brasil.

Até pouco tempo a Psicologia científica não havia dedicado quase nenhuma atenção ao assunto. É somente a partir da década 1980 que surge um interesse intensivo e metodologicamente estruturado, voltado para o estudo do perdão, observam os autores.

Eles constatam e descrevem esforços de pesquisadores de várias universidades do país que demonstram a importância desse processo comportamental para quem perdoa, para quem é perdoado e para a sociedade.

Os estudos analisados pelos autores, mostram que, apesar dos pesquisadores concordarem sobre o que não seja o perdão, eles demonstram divergências em como o compreendem, fato que leva a implicações importantes na maneira de estudá-lo.

Uma corrente de pesquisadores considera o perdão como sendo um fenômeno intrapessoal, ou seja, o indivíduo deve resolver-se dentro de si mesmo, sem a necessidade da participação do ofensor. Isso pode acontecer mesmo que o ofendido não tenha mais relação com o ofensor, ou mesmo que esse tenha falecido.

A outra corrente entende que o perdão deva ser abordado de forma interpessoal, ou seja, importa a relação com o outro. É levada em conta a forma de relacionamento antes e depois do incidente e como cada um contribui para o relacionamento. Nesse sentido, estimulam-se conversas francas e as terapias familiares onde os conflitos são discutidos abertamente e cada um coloca seu ponto de vista, suas razões para ter agido de determinada forma.

Segundo eles, não existe ainda uma definição consensual sobre o que é perdão no campo da Psicologia, “essas diferenças nos sentidos atribuídos ao perdão não são necessariamente problemáticas neste estágio recente de estudos… Em outras palavras, embora as definições sejam plurais, o objetivo último das investigações que envolvem o perdão é descobrir maneiras de promover atitudes positivas que possam sustentar a decisão de perdoar”, concluem.

Existem esforços individuais muito bem sucedidos, como por exemplo, os citados por Divaldo Franco em seu seminário “O perdão e o autoperdão”, em que a terapeuta de Boston, dra. Robin Casarjian, apresenta visões práticas da aplicabilidade do perdão.

A autoterapia do perdão de Robin é gradativa, como em um treinamento.

É preciso repetição para que esse ato seja perfeitamente dominado, integrado e natural. Ela afirma que o perdão é algo que se pode fazer imediatamente, mesmo quando existam pessoas que não nos sintamos prontos a perdoar.

Recomenda que se inicie no que chama “território neutro”, ou seja, com pessoas que não conhecemos realmente, com quem não temos histórias de raiva e ressentimento. Essa proposta permite que se acostume com o processo, iniciando com alguns pontos básicos.

Ela ensina a aceitar e vivenciar a raiva, diluí-la e nunca cultivá-la. Mostra que perdoar é mais do que algo que se faz quando se está culpado, zangado ou ressentido. Pode-se trabalhá-lo com qualquer um; e explica que ao encontramos alguém, o impulso do ego é julgar e fazer distinções para determinar se estamos lidando com um amigo ou inimigo em potencial.

Somos ainda essencialmente julgadores e esses julgamentos mantêm nossos corações fechados e nos separam dos outros. Nós nos afastamos por meio de uma presunção de superioridade ou nos isolamos estabelecendo nossa inferioridade. Ou diminuímos e julgamos a nós mesmos e nos tornamos ‘errados’, ou projetamos a separação de nosso self, tornando os outros errados e criando bodes expiatórios para carregar o fardo de nossas inseguranças e medos.

A prática do perdão em “campo neutro” do conceito da dra. Casarjian é muito interessante. Quando cumprimentamos alguém com um olá, esse costuma ser nosso reconhecimento que outra pessoa está diante de nós. Em uma certa cultura africana, a saudação significa “eu o vejo”, não “eu vejo você”, referenciando um corpo, mas a sua natureza central, sempre digna de respeito, reconhecimento e amor.

Como toda terapia implica em procedimentos, exercícios e esforços de modificação, não basta o conhecimento intelectual do conceito, mas ela propõe que três vezes ao dia, por alguns minutos, onde estejamos, pratiquemos o perdão com pessoas que nunca vimos antes, ou que não conhecemos bem. Vejamos nelas pessoas pacíficas, amorosas e sábias, ou seja, que vejamos luz em todos.

A partir do perdão em “campo neutro”, em seu “O Livro do Perdão”, a dra. Robin desenvolve exercícios de perdão aplicados aos pais, cônjuges, crianças e a nós mesmos. Ela considera “que as pessoas que perdoam, são capazes de ir além do mero conformismo rumo a uma cura mais profunda e a uma vida mais feliz.”.

Perfeitamente inspirada nos conceitos de Jesus, a Doutrina Espírita com Allan Kardec em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo X, traz comentários valiosíssimos sobre o tema, tanto por parte de Kardec quanto dos Espíritos da Falange Verdade como o Apóstolo Paulo e São Luís, em que tomando por base as passagens de Jesus registradas no Evangelho, aprofundam os entendimentos e trazem novas luzes e incentivo à sua prática.

Os Espíritos André Luiz, Emmanuel, Joanna de Angelis, Hammed, entre tantos outros, em livros complementares à Codificação, oferecem um conteúdo vastíssimo sobre o tema.

André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier, nos mostra as consequências de não perdoar pela ótica espiritual. Em várias passagens ele exibe cenário, personagens e as consequências, ficando claro que o perdão, quando não concedido pela alma na Terra, pode significar a continuidade da animosidade e do desforço entre as partes envolvidas nos dois planos da vida.

Constatamos esse fato nas Assistências espirituais de desobsessão. Nesse aspecto, continua atualíssima a advertência de Jesus quando nos ensina “reconciliai-vos o mais depressa com o vosso adversário, enquanto estais com ele no caminho”.

Joanna de Angelis, a orientadora do médium Divaldo Pereira Franco, apresenta-nos uma série de estudos psicológicos onde não falta o tema do perdão.

Em seu “Liberta-te do Mal”, ela afirma que sem o equilíbrio psicofísico, ou seja, do corpo e da mente, muito difícil se torna o autoconhecimento, o discernimento e a consciência ante os desafios da existência. Assevera ainda que são inúmeros os males causados aos tecidos nervosos quando as criaturas reincidentemente cultivam ideias nocivas.

Pessimismo, mágoa, desejo de vingança, ciúme, rebeldia emocional transformam-se em tóxicos destrutivos para o organismo, agredindo células e abrindo espaço para a contaminação bacteriológica. Depressões e distúrbios do pânico, ansiedades e angústia também são produtos do cultivo de sentimentos desalinhados na nossa mente.

No sentido de minorar esses desequilíbrios, ela indica a terapêutica do perdão das ofensas. Lembra, que praticarmos o perdão não significa que o ofensor ficará liberado da responsabilidade do ato ignóbil praticado, e orienta que não deixemos que a mágoa peça conta ao ofensor em apelos de justiça feitos por nós à Divindade. O ofensor é o infeliz. Ela pondera que, em certos casos, muitos dos que nos combatem gostariam de estar em nosso lugar, ou fazer o que fazemos, mas verificando essa impossibilidade, ao invés de crescerem moralmente, apedrejam-nos o nome. Recorda-nos, ainda, que tudo o que acontece tem uma finalidade útil no caminho do nosso aprimoramento.

– “Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim, que lhe hei de perdoar? Será até sete vezes?”

Jesus respondeu-lhe calmamente:

– “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.”

Humberto de Campos, Espírito, nos relata em seu “Boa Nova”, capítulo 10, que, a partir dessa resposta dada a Pedro por Jesus, lhe ensinando a necessidade do perdão incondicional na sublime obra da redenção, o Mestre passou a aproveitar as menores oportunidades para enfatizar a lição aos seus apóstolos, que a absorveram e foram fieis a ele após a sua partida, perdoando indistintamente.

Espelhando-nos em seus exemplos possamos, também nós, a breve tempo, alcançarmos o entendimento, a prática e o sentimento dessa ação virtuosa em nome de nossa paz.

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