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Publicado em 24 de setembro, 2016 | por Centro Paz e Amor

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Atrasados, primitivos ou degenerados? – SEGUNDA PARTE

Sidney Fernandes

([1])

Ele era um dos melhores médicos da região. Obstetra, sempre representou a segurança e importante recurso para prover cuidados de saúde a um sem número de parturientes, recém-nascidos e familiares. Durante muitos anos promoveu e preservou a normalidade do processo de nascimento de uma grande parte da população daquela pequena cidade, atendendo suas necessidades físicas e emocionais.

Honrado e de bom coração, não se importava com a situação financeira ou posição social de suas pacientes. Tratava todas com a mesma eficiência, carinho e competência. A cidade inteira o amava e o respeitava.

Foi realmente com muita surpresa e pesar que, depois de vinte anos de trabalho em favor da comunidade, o competente médico veio a sofrer um acidente vascular isquêmico, também chamado de derrame, com severo dano cerebral. O bom facultativo entrou em estado vegetativo persistente, aparentemente sem consciência. Permaneceu assim por mais de vinte anos, sob a vigilância e tratamento constante de familiares e assistentes especializados.

Pessoas nessa situação podem parecer acordadas e ter algum reflexo. Diz a ciência que não. Elas não teriam consciência do ambiente que as cercam. As aparências indicariam uma parada completa do desenvolvimento de todo o sistema orgânico.

E seu Espírito, como estaria?

Os familiares espíritas jamais deixaram de orar e pedir aos mentores espirituais que aliviassem e amparassem o doente querido, ao mesmo tempo que buscavam forças, paciência e resignação.

Certa feita, estava a família numa reunião mediúnica, quando se manifestou o dirigente espiritual:

— Como posso ajudá-los, caros irmãos?

— Podemos ter notícias do Espírito do nosso pai? Encontra-se ele em estado de dormência, assim como o seu corpo? — perguntou prudentemente uma das filhas do médico em estado de coma.

— Sua alma prende-se ao corpo por laços materiais, não, porém, por laços espirituais, que sempre podem ser afrouxados. Gostaria de falar com ele?

A filha surpreendeu-se com a resposta. Imediatamente aproximaram-se seus dois irmãos, que também se encontravam no recinto.

— Isso seria possível? — indagou a filha emocionada.

— Desde que revestida de respeito, bons sentimentos e muita cautela, a comunicação será possível. Sugiro que o diálogo seja realizado pelo nosso irmão dirigente dos trabalhos, para que a emoção dos familiares não turve o seu conteúdo.

O amigo tem consciência de seu estado atual? — começou o dirigente.

—Sem dúvida! — respondeu o comunicante — Sou um pobre Espírito preso à Terra como uma ave por uma pata.

— Consegue o irmão ter alguma consciência da atenção, das conversas e das orações de seus familiares?

— Não com a plenitude de minha consciência como agora. O carinho de meus queridos, porém, jamais me passa despercebido.  O atual estado de meus órgãos impossibilita a livre manifestação dos meus pensamentos, porém, não os aniquilam.

— Tendo tido uma existência profícua, dedicada à saúde e à minimização das dores de inúmeras criaturas, por que razão o irmão encontra-se nesse atual estado de inconsciência?

  — Por causa de minhas existências precedentes. Não por acaso, pedi a Deus que me colocasse nesta situação, prevista desde antes do meu nascimento. E o que é a duração de uma existência perante a eternidade? Certamente, tentei agir da melhor maneira possível durante o tempo que me foi disponibilizado. O meu sofrimento atual, no entanto, foi por mim aceito antes de reentrar na humanidade.

— O caro irmão tem ideia do tempo que ainda permanecerá conosco?

— Diga aos meus filhos que minha prova dolorosa está se findando. Que jamais deixem de orar por mim e que sou muito grato pelo cuidado que estão tendo com o meu corpo. Agradeço muito as demonstrações de carinho e reconhecimento que todos têm comigo.

Com efeito, poucos dias depois desse diálogo, o bom médico desencarnou. A comunicação, com a presença dos filhos, foi a sua despedida, antes de partir para a libertação da espiritualidade.

— Que é o culpado? Aquele que por um desvio, por um falso movimento da alma, se distancia do objetivo da criação.

—Que é o castigo? A consequência natural, derivada desse falso movimento.

Paulo, o apóstolo, em O Livro dos Espíritos.

Alguns Espíritos ficam aprisionados em seus corpos, por iniciativa própria, ou por expiação, em decorrência do mau uso que fizeram de suas faculdades. Não podem exprimir seus pensamentos. Esse mutismo é uma das mais difíceis punições terrestres. Frequentemente ela é escolhida por Espíritos arrependidos que querem resgatar suas faltas. Em muitas ocasiões podem ver e ouvir o que se passa ao seu redor, sem poder, todavia, se exprimir.

Com o progresso da ciência e com a evolução das criaturas, essa situação poderá se tornar cada vez mais rara. A tendência é de que as punições passem a ser de caráter moral. Seguirão o ciclo de progresso que, mais cedo ou mais tarde, envolverá o planeta Terra, que um dia irá se tornar a morada da felicidade.

– continua na terceira parte –



([1]) Adaptado do caso Charles de Saint-G, contido no Cap. VIII, Segunda parte, de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec.

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