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Publicado em 9 de janeiro, 2017 | por Centro Paz e Amor

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Feridas e cicatrizes da infância

Livro – Amor Imbativel Amor  – JOANNA DE ANGELIS

Tem sido estabelecido através da cultura dos tempos, que a infância é o período mais feliz da existência humana, exatamente pela falta de discer­nimento da criança, e em razão das suas aspirações que não passam de desejos do desconhecido, de necessidades imediatas, de ignorância da realidade.
Os seus divertimentos são legítimos, porque a eles se entrega em totalidade, sem qualquer esforço, graças à imaginação criadora que a transporta para esse mundo subjacente do crer naquilo que lhe pa­rece. Não estando a personalidade ainda formada, não há dissociação entre o que tem existência real e aquilo que somente se fundamenta na experiência mental.
A criança atravessa esse período psicologicamente feliz, sem o saber, com as exceções compreensíveis de casos especiais, porque tampouco sabe o que é a felici­dade. Só mais tarde, na idade adulta é que, recordando os anos infantis, constata o seu valor e pode ter dimen­são dos acontecimentos e prazeres.
Como a criança não sabe o que é felicidade, facilmente identifica-a no divertimento, aquilo que a agrada e a distrai, os jogos que lhe povoam a ima­ginação.
É na infância que se fixam em profundidade os acontecimentos, aliás, desde antes, na vida intra-uteri­na, quando o ser faz-se participante do futuro grupo familiar no qual renascerá. As impressões de aceitação como de rejeição se lhe insculpirão em profundidade, abençoando-o com o amor e a segurança ou dilacerando-lhe o sistema emocional, que passará a sofrer os efei­tos inconscientes da animosidade de que foi objeto.
Da mesma forma, os acontecimentos à sua volta, direcionados ou não à sua pessoa, exercerão prepon­derante influência na formação da sua personalidade, tornando-a jovial, extrovertida ou conflitada, depressi­va, insegura, em razão do ambiente que lhe plasmou o comportamento.
Essas marcas acompanhá-la-ão até a idade adulta, definindo-lhe a maneira de viver. Tornam-se feridas, quando de natureza perturbadora, que mesmo ao se­rem cicatrizadas, deixam sinais que somente uma tera­pia muito cuidadosa consegue anular.
Por sua vez, o Espírito, em processo de reencarna­ção, acompanha mui facilmente os lances que prece­dem à futura experiência, e porque podendo movimen­tar-se com relativa liberdade antes do mergulho total no arquipélago celular, compreende as dificuldades que terá de enfrentar mais tarde, ao sentir-se desde então indesejado, maltratado, combatido.
Certamente, essa ocorrência tem lugar com aque­les que se vêm impelidos ao renascimento para repa­rar pesados compromissos infelizes, retornando ao seio das suas anteriores vítimas que agora os rechaçam, o que é injustificável.
A bênção de um filho constitui significativa con­quista do ser humano, que se deve utilizar do ensejo para crescer e desenvolver os sentimentos superiores da abnegação e do amor.
As reações vibratórias que podem produzir os Es­píritos antipáticos na fase perinatal, produzem, não raro, mal-estar. Não obstante, a ternura e a cordialida­de fraternal substituem as ondas perturbadoras por outras de natureza saudável, preparando os futuros pais para o processo de aprimoramento e de educação do descendente.
Na raiz de muitos conflitos e desequilíbrios juve­nis, adultos, e até mesmo ressumando na velhice, as distonias tiveram origem — efeito de causa transata —no período da gestação, posteriormente na infância, quando a figura da mãe dominadora e castradora, as­sim como do pai negligente, indiferente ou violento, frustrou os anseios de liberdade e de felicidade do ser.
Todos nascem para ser livres e felizes. No entanto, pessoas emocionalmente enfermas, ante o próprio fra­casso, transferem para os filhos aquilo que gostariam de conseguir, suas culpas e incapacidades, quando não descarregam todo o insucesso ou insegurança naque­les que vivem sob sua dependência.
Esse infeliz recurso fere o cerne da criança, que se faz pusilânime, a fim de sobreviver ou leva-a a refugi­ar-se no ensimesmamento, na melancolia, sentindo-se vazia de afeto e objetivo de vida. Com o tempo, essas feridas purulam, impelindo a atitudes exóticas, a com­portamentos instáveis, às fugas para o fumo, a droga, o álcool ou as diversões violentas, mediante as quais ex­travasam o ressentimento acumulado, ou mergulham no anestésico perigoso da depressão com altos reflexos na conduta sexual, incompleta, insatisfeita, alienado­ra…
A sociedade terá que atender à infância através de mecanismos próprios, preenchendo os espaços deixa­dos pela ausência do amor na família, na educação es­colar, na convivência do grupo, nas oportunidades de desenvolvimento e de auto-afirmação de cada qual. Para tal mister, torna-se necessário o equilíbrio do adulto, do educador formal, que pode funcionar como psi­coterapeuta, orientando melhor o aprendiz e reenca­minhando-o para a compreensão dos valores existen­ciais e das finalidades da vida.
Inveja, mágoa, ciúme, instabilidade, ódio, pusila­nimidade e outros hediondos sentimentos que afligem as crianças maltratadas, carentes, abandonadas mesmo nas casas onde moram, desde que não são lares verda­deiros, constituem os mecanismos de reação de todos quantos se sentem infelizes, mesmo que inconscientemente.
A compreensão dos direitos alheios e dos próprios deveres, o contributo da fraternidade, a segurança afe­tiva, a harmonia interior, a compaixão, a lealdade se instalarão no ser, cicatrizando as feridas, à medida que o meio ambiente se transforme para melhor e o afeto dos outros, sincero quão desinteressado, substitua a indiferença habitual.
Qualquer ferida emocional cicatrizada pode rea­brir-se de um para outro momento, porqüanto não er­radicada a causa desencadeadora, os tecidos psicoló­gicos estarão muito frágeis, rompendo-se com facilidade, pela falta de resistência aos impactos enfrenta­dos.
A questão da felicidade, por isso mesmo, é muito relativa. Se a felicidade são os divertimentos, ou é o prazer, ei-la de fácil aquisição. No entanto, se está radi­cada na plenitude, muito complexa é a engrenagem que a aciona.
De certo modo, ela somente se expressa em totali­dade, quando o artista conclui a obra a que se entrega, o santo ao ministério de amor a que se devota, o cientista realiza a pesquisa exitosa, o pensador atinge com a sua mensagem o mundo que o aguarda, o cidadão comum se sente em paz consigo mesmo… O dar-se, a que se refere o Evangelho, certamente é a melhor me­todologia para alcançar-se essa ventura que harmoni­za e plenifica.
Toda vez, portanto, que alguém sinta incompletu­de, insegurança, seja visitado pelos sentimentos inqui­etadores da insegurança, do medo, da raiva e da inveja injustificáveis, exceção feita aos estados patológicos profundos, as feridas da infância estão ainda abertas ou reabrindo-se, e necessitando com urgência de cica­trização.

 

 

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